PARA ERNST MAYR, BIOLOGIA NÃO SE REDUZ ÀS CIÊNCIAS FÍSICAS
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Arquivo pessoal Steve Mirsky ![]() |
ERNST MAYR
em simpósio na Universidade Harvard (da qual é professor emérito), em
Cambridge (EUA), organizado em comemoração a seu aniversário de cem anos
FAZ CEM ANOS AMANHÃ O ÚLTIMO REPRESENTANTE DA GERAÇÃO DE BIÓLOGOS QUE
FORMULOU A MODERNA SÍNTESE EVOLUCIONISTA, TEORIA QUE REÚNE A SELEÇÃO NATURAL
DE CHARLES DARWIN E ALFRED RUSSEL WALLACE COM A GENÉTICA E A ECOLOGIA
Claudio Angelo
em Bedford, Massachusetts (EUA)
A porta do elevador se abre e Ernst Mayr avança lenta e determinadamente em
direção aos três jornalistas. "Entrevista? Claro. Mas só depois de
apanhar a minha correspondência." Logo, Mayr conduz seus interlocutores ao
apartamento onde mora e trabalha sozinho. Nada mau para um centenário.
Pouca gente fora da área de ciências conhece o nome desse alemão, que
completa cem anos amanhã. Mais familiar é o conceito de espécie biológica,
que ele ajudou a definir na década de 1940. E a teoria da evolução de Darwin,
da qual ele é o maior guardião. Conhecido por colegas na Universidade Harvard
apenas como Ernst, Mayr é a última lenda viva da biologia. Ele foi um dos
responsáveis pela chamada Moderna Síntese Evolucionista, movimento acadêmico
que juntou a teoria darwinista da seleção natural com a genética e a
ecologia, dando origem à teoria da evolução de hoje.
"Ele é o principal acadêmico darwinista do século 20", diz o
antropólogo David Pilbeam, de Harvard. Para o fisiologista Jared Diamond, da
Universidade da Califórnia em Los Angeles, Mayr "moldou a vida dos
cientistas" do século passado. Legendário por sua determinação, pela
defesa acirrada de suas idéias e por sua coragem -fez em 1928 o primeiro
levantamento das aves da Nova Guiné, enfrentando malária e guerras entre
tribos-, é também um observador privilegiado dos últimos 80 anos da história
da biologia, que viram o darwinismo virar paradigma e o gene virar moda.
A importância de Mayr começa onde a habilidade de Charles Darwin para aparar
as arestas da própria teoria terminaram. Darwin propôs a seleção natural
como mecanismo evolutivo, mas morreu (em 1882) sem saber como a variação
surgia nos organismos e era passada de geração a geração. A genética,
fundada por Gregor Mendel, só seria plenamente estabelecida no começo do
século passado. Os contemporâneos de Darwin, incluindo seu amigo Thomas Huxley,
nunca compraram inteiramente suas idéias. "E, claro, os resultados de
Mendel eram desconhecidos. O pensamento darwinista tinha saído de moda no
primeiro quarto do século 20", diz Pilbeam.
O jogo só viraria a partir de 1936, quando o genetictista russo Theodosius
Dobzhansky -que viria para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e formaria
pesquisadores como Crodowaldo Pavan e Antônio Brito da Cunha, na USP- propôs a
unificação da genética com o darwinismo. Mais tarde, os zoólogos Ernst Mayr
e Julian Huxley (neto de Thomas Huxley), os geneticistas de populações R.A.
Fisher e J.B.S. Haldane e o paleontólogo George Gaylord Simpson publicariam
trabalhos nos quais resolveriam várias questões em aberto na teoria. A
definição de espécie de Mayr como conjunto de organismos que se cruzam entre
si, mas que estão sexualmente isolados de grupos semelhantes, é adotada até
hoje.
Autor de 24 livros, entre eles o clássico "Sistemática e a Origem das
Espécies", de 1942, Mayr acaba de concluir sua 25ª obra, sobre filosofia
da biologia. "Meu objetivo é mostrar que a biologia é uma ciência
autônoma, independente das ciências físicas. Eu acho, modéstia à parte, que
esse vai ser um livro importante."
Nesta entrevista, gravada durante uma hora e meia em sua casa, Ernst passa em
revista a história de sua disciplina, critica sutilmente adversários
intelectuais e comenta a resistência dos americanos em aceitar a evolução. E
dá a receita da longevidade: acordar cedo, caminhar, não parar de trabalhar
e... tomar iogurte todo dia.
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Ouvimos falar que o sr. está trabalhando no 26º livro.
Não é o 26º, é o 25º [risos]. E eu não estou trabalhando mais nele, já li
as provas finais. Não sei como o pessoal das editoras usa seu tempo, mas a
pessoa da Cambridge University Press encarregada da publicação me disse que
não sai antes de julho ou agosto.
E do que trata o livro?
O livro tenta mostrar -e eu diria que nem é necessário mostrar, mas muita
gente discorda- que a biologia é uma ciência autônoma, que não deve ser
misturada com a física. Essa é a minha mensagem. E, de fato, quando as pessoas
me perguntam qual é realmente o meu campo, 50 ou 60 anos atrás eu teria dito
sem hesitar: "Eu sou um ornitólogo". Há 40 anos, teria dito que era
um evolucionista. Um pouco mais tarde, eu ainda diria que era um evolucionista,
mas diria também que era um historiador da biologia. E, nos últimos 20 anos,
gosto de dizer que sou um filósofo da biologia. E -isso é provavelmente um
fato do qual eu possa me gabar-, tenho diplomas honorários pelo meu trabalho em
ornitologia em duas universidades, em evolução, em sistemática, em história
da biologia e em filosofia da biologia.
É do ponto de vista filosófico que o sr. sente que a física limita a
biologia?
Eu mostro que a biologia é uma ciência séria, legítima e honesta, como as
ciências físicas, e todas as idéias que costumavam ser misturadas com a
filosofia da biologia, como o vitalismo e a teleologia, que vieram para tentar
desacreditar a biologia, todas essas coisas esquisitas estão fora. A biologia
tem exatamente as mesmas bases das ciências físicas, compostas de leis
naturais. As leis naturais se aplicam à biologia da mesma forma que se aplicam
às ciências físicas. Mas as pessoas que comparam ambas, e os filósofos que
põem a biologia junto com as ciências físicas, deixam de fora um monte de
coisas. Você pode ver claramente que a biologia não é a mesma coisa que as
ciências físicas. Dou apenas dois exemplos -um são as biopopulações.
Biopopulação é algo que simplesmente não existe nas ciências físicas, e no
entanto é a base de quase todos os conceitos em biologia. E a segunda coisa na
qual a biologia difere por princípio das ciências físicas é que, nas
ciências físicas, todas as teorias, sem exceção, são baseadas em leis
naturais. Em biologia não há leis naturais que correspondam às das ciências
físicas. Você pode perguntar como você pode ter teorias sem leis. Bem, em
biologia, as teorias não se baseiam em leis, mas em conceitos -como o de
seleção natural, em biologia evolutiva, ou conceitos como os de recursos ou de
competição, em ecologia. Claro, em última instância, as leis físicas são a
base de tudo, mas não diretamente da ecologia. E assim por diante. Eu acho,
modéstia à parte, que esse vai ser um livro realmente importante, porque os
filósofos ignoram essa questão. Ela é aborrecida, não se encaixa nos
esquemas de pensamento deles, então eles a varrem para debaixo do tapete.
Então houve um período, após Newton e antes de Darwin, no qual a física
foi uma ciência distinta da biologia?
Definitivamente. Temos um documento histórico maravilhoso que ilumina isso.
Kant, depois de ter mostrado na "Crítica da Razão Pura" como tudo
nas ciências físicas é baseado nas leis naturais, foi mostrar em 1790 que a
biologia não é uma exceção, que ela é baseada inteiramente em leis
naturais. Ele descreve isso em algum lugar nos primeiros capítulos da
"Crítica do Juízo". Ele tentou explicar a biologia em termos de
generalizações, de leis naturais, e foi um desastre completo. Finalmente, ele
disse: bem, precisamos pôr [a biologia] em outro lugar. Onde vai ser? Claro, na
teleologia. Então ele escreveu "Crítica do Juízo", no qual tentou
fazer isso. E aquele volume, claro, foi um desastre. O número de livros
escritos sobre "Crítica do Juízo" é simplesmente incrível. Todo
mundo tentou demonstrar como Kant teve a intuição correta de fugir das leis
naturais para a biologia e adotar em vez delas a teleologia. Bem, um dos
capítulos do meu próximo livro se dedica a mostrar que isso não funciona.
Não há nenhuma força obscura na natureza, como a teleologia ou a causa
primeira de Aristóteles.
Então o sr. diria que a busca da biologia molecular por circunscrever tudo a
ligações químicas e leis físicas é o mesmo erro que Kant cometeu?
Não. Deixe-me dar um passo atrás. Quando a biologia se originou? Bem, até o
século 18, você tinha vários campos de atividade biológica, como anatomia e
taxonomia, mas não tinha o campo da biologia. A palavra "biologia",
curiosamente, foi proposta três vezes, independentemente, por volta de 1800,
por três autores -dois alemães e um francês. Minha proposição, que fiz em
livros anteriores, foi que a biologia como um campo que você pode reconhecer,
como algo diferente das ciências físicas, que você pode designar por uma
única palavra, se desenvolveu e se tornou o que é hoje em um período
relativamente curto. Foram cerca de 40 anos, [a partir] de 1828, quando Karl
Ernst von Baer organizou a embriologia, e logo depois vieram os fundadores da
citologia, [Theodor] Schwann e [Matthias Jakob] Schleiden, que causaram um
grande furor quando publicaram seu trabalho na década de 1830, ao mostrar que
animais e plantas são compostos dos mesmos elementos, as células. Então veio
o grande período da fisiologia, com Claude Bernard, na França, e pessoas como
Johannes [Peter] Müller e outros, na Alemanha. Esse foi um terceiro campo.
Após algum tempo vieram [Charles] Darwin e [Alfred Russel] Wallace e a biologia
evolutiva, e depois, em 1865-66, a genética. Então, essa série de ciências
que começam com a embriologia e terminam com a genética são os alicerces da
biologia. Você pergunta sobre a biologia molecular. Bem, deixe-me dar mais um
passo ou dois atrás. Houve um período no começo do século passado durante o
qual a síntese evolucionista teve lugar. Até aquela época, ou seja, o
período entre 1859 e a síntese, nos anos 1940, houve uma grande reviravolta na
biologia evolutiva, na qual foram propostas pelo menos quatro ou cinco grandes
teorias básicas da evolução, como a das células germinativas. A síntese
evolucionista, iniciada por [Theodosius] Dobzhansky e à qual se juntaram depois
pessoas como eu, Julian Huxley e [George] Simpson, pôs um fim às elaborações
teóricas no campo da evolução. Você tem [Oswald Theodore] Avery mostrando
que os ácidos nucléicos, não as proteínas, são o material da evolução, e
aí vieram James Watson e Francis Crick e todos os desenvolvimentos em biologia
molecular, depois a genômica. Cada vez que uma dessas grandes revoluções
acontecia, alguém esperava, por exemplo, que a síntese evolucionista fosse
precisar ser reescrita. Mas o fato é que nenhuma dessas revoluções na
estrutura da nova biologia, de Avery à genômica, nada disso realmente afetou o
paradigma darwinista. Dito isso, desde Watson e Crick novos livros aparecem
tentando provar que o darwinismo é inválido. Nenhum deles foi um sucesso.
Agora, finalmente respondendo à sua pergunta, o gozado é que a biologia
molecular tem um impacto notavelmente pequeno na teoria estrutural da biologia.
Pelo menos é o que me parece hoje em dia. Claro, os biólogos moleculares podem
apontar para o código genético e dizer que o código mostrou que a vida como a
conhecemos só pode ter se originado uma vez, senão não teríamos o mesmo
código para todos os organismos. E há outras contribuições da biologia
molecular, mas nenhuma delas realmente tocou a teoria estrutural do paradigma
darwinista, na minha opinião.
Por outro lado, ela é vista pelos biólogos moleculares e também pelo
público como o momento que define a biologia do século 20. Eles reconstruíram
toda a história da biologia como se apontasse para a biologia molecular e o
Projeto Genoma Humano como seu clímax...
Se você voltar atrás, os biólogos moleculares se apropriam de tudo o que
aconteceu antes como crédito deles. Mas, por outro lado, se você fosse um
citologista, você poderia dizer que a demonstração de Schwann e Schleiden de
que todos os organismos consistem em células é uma fundação tão importante
da biologia como, digamos, a de que todos os ácidos nucléicos consistem em
pares de bases. Eu diria que, do ponto de vista filosófico, os achados
descritivos da biologia molecular não são mais importantes do que as
conquistas na origem da biologia no período de 1828 a 1866. Essas descobertas
são tão importantes quanto qualquer coisa em biologia molecular.
Alguns críticos da biologia molecular dizem que esse campo transformou a
biologia numa espécie de atividade industrial e a desviou de uma ciência
orientada por hipóteses. O sr. concorda que isso esteja acontecendo?
Em algum grau, sim. Olhe para a lista das pessoas que são eleitas em biologia
para a Academia Nacional de Ciências [dos EUA]. Reclama-se nessas
instituições que as pessoas que são eleitas ou que recebem prêmios são
[só] biólogos moleculares. A biologia molecular parece ter uma espécie de
glamour, que leva à eleição em sociedades, prêmios e coisas assim. E, de vez
em quando, há um desenvolvimento em biologia de organismos que a torna muito
atraente, pelo menos por um tempo. Por exemplo, quando se descobriu que
moléculas são pistas muito boas para a filogenia, ou seja, para as relações
de ancestralidade e parentesco entre organismos. De repente, multidões de
biólogos moleculares começaram a escrever sobre filogenia de organismos, um
ramo muito específico da biologia de organismos, e eles todos estavam muito
orgulhosos em poder dizer que as baleias derivam de ungulados artiodáctilos. E
se você realmente olhar para o que muitos biólogos moleculares estão fazendo
hoje, o que eles estão realmente fazendo é estudar aspectos da biologia de
organismos. Há vários autores cujos nomes eu não vou citar que costumam
dizer: "Ernst Mayr se opõe à biologia molecular". Eu nunca me opus
à biologia molecular. Eu recebi prêmios em biologia molecular, das pessoas que
sabiam que eu nunca realmente me opus. Eu fui palestrante em vários simpósios
moleculares. E tudo o que eu disse foi que a biologia molecular não era o
único tipo de biologia.
Eu me lembro de ter assistido a uma conferência, cinco ou seis anos atrás,
na qual o pesquisador estava discutindo se duas populações eram espécies
diferentes. Eles determinaram que eram duas espécies com base em análise
genética. Não é perigoso se fiar tanto no DNA?
Depende. Em alguns casos, a diferença molecular não é indicativa de que são
espécies distintas. Em alguns casos, é. Você tem de ter conhecimento de
biologia de organismos para chegar à conclusão certa.
Há um conjunto de regras que determinam isso?
Não. Pode ser um único gene. Você tem duas escolas de evolucionistas, aqueles
centrados nos genes e aqueles centrados nos organismos. Na década de 20 do
século passado, quando J.B.S. Haldane e R.A. Fisher tiveram grande sucesso na
genética molecular, havia uma grande crença em genes isolados, e você tinha a
definição de evolução como a mudança nas freqüências de genes através
das gerações, uma definição que nenhum geneticista que se preze daria hoje.
Naquela época, havia uma polarização entre os chamados geneticistas de
populações, que são centrados nos genes, e os naturalistas, que diziam que o
indivíduo é que é selecionado e que o gene é apenas a forma por meio da qual
o indivíduo é selecionado. Isso foi até os anos 1930. Então começou a se
demonstrar, caso a caso, que tudo também dependia do contexto de outros genes.
Portanto, um gene único não podia ser imediatamente selecionado. Um gene
sempre ocorre no contexto de um genótipo, e no do fenótipo produzido por esse
genótipo. Isso foi indicado por Dobzhansky em 1937, mas não realmente
enfatizado. Aí vieram vários autores, alguns amigos de Dobzhansky, ressaltando
que era a combinação de genes, portanto o indivíduo, o alvo da seleção
natural. Depois, em 1970, saiu um artigo de Dick [Richard] Lewontin mostrando
como não podia ser um só gene, e, em 1984, outro artigo de Lewontin com o
filósofo Eliott Sober. Levou 60 anos, de 1924 a 1984, para essa visão centrada
no gene ir embora. Mas ainda hoje autores como [Richard] Dawkins insistem nela.
Eu tenho uma citação maravilhosa do Dawkins, na qual em uma única frase ele
admite que o gene não é o alvo de seleção e depois ignora isso, dali em
diante. Mas ela estará no meu novo livro [risos].
O sr. acha que ainda há espaço para trabalho de campo, naturalista, como
aquele em que sr. iniciou sua carreira?
Ah, sim. Deixe-me voltar um pouco atrás: pense que 80% ou 90% dos pares de base
não codificam nada. Esse problema incomoda a maioria dos biólogos moleculares,
então eles o ignoram dizendo: "Nós vamos resolver isso". A verdade
é que eles ainda estão para fazê-lo. Como um bom darwinista, é parte da
minha religião que nada acontece na evolução sem ter sido autorizado pela
seleção natural. Mesmo assim, se nós estudarmos um processo evolutivo,
encontramos todo tipo de coisa acontecendo que parece oposta ao conceito de
seleção natural. Só que as pessoas não se dão conta de que a coisa mais
importante na seleção natural é a eliminação de genes inferiores, não a
seleção dos melhores. E essa eliminação é bem menos egoísta que a
seleção dos melhores. Mas o que é "inferior"? Vários genes não
são bons o suficiente para serem selecionados positivamente, mas também não
são ruins o suficiente para serem eliminados. Olhe o pavão, por exemplo. Como
pode a seleção natural selecionar uma monstruosidade como aquela cauda
desajeitada, que o tornaria imediatamente vítima de um predador? A resposta é
que o estudo da seleção natural é muito primitivo. Por exemplo, eu estou
convencido de que as pessoas que estudam o começo da evolução animal, como no
Pré-Cambriano e no Cambriano, como Steve [Jay] Gould -e eu acho que ele teve a
intuição certa aí-, elas dizem que uma das grandes coisas sobre o
Pré-Cambriano e o Cambriano é que todos esses tipos incríveis de animal foram
produzidos e se extinguiram muito rápido. Como a seleção natural poderia ter
produzido organismos tão complexos, tão improváveis? Eu acho que essa é a
parte mais importante do trabalho de Gould: ele disse algo na linha "não
vamos seguir Darwin, nem vamos pensar que a seleção natural escrutiniza tudo o
tempo todo e sempre seleciona o melhor". Nada disso, disse Gould. De
geração a geração, sempre vários genótipos que não estão nem a meio
caminho de ser algo bom passam para a geração seguinte, e isso explica muitos
tipos de coisas que foram permitidas pela seleção natural, particularmente no
período mais primitivo da existência dos animais. Acho que nessa área há um
princípio que é muito clássico, mas ainda há uma enorme quantidade de coisas
a serem pensadas. Eu vou escrever um artigo para a revista "Science"
[publicado na edição de anteontem; veja www.sciencemag.org]
por ocasião dos meus cem anos, no qual vou contar sobre minha carreira em
poucas... bem, relativamente poucas palavras. Pretendo finalizar esse artigo
dizendo que, quando olho para coisas como essas, posso pregar coragem ao jovem
evolucionista, mas que o trabalho do evolucionista não está de forma alguma
completo. Está cheio de questões não respondidas, mas, mais importante ainda,
de questões não formuladas.
O sr. acha que as respostas a elas deverão vir da zoologia, da botânica, da
paleontologia ou do laboratório?
De toda parte. Pegue a biologia do desenvolvimento, por exemplo. Nos anos 1930,
quando as teorias de Spehmann (o princípio organizador) foram refutadas, os
biólogos experimentais desistiram de biologia do desenvolvimento, e nada de
impacto foi feito nessa área até a década de 1970, quando a "Evo-Devo"
[estudo da evolução do desenvolvimento] apareceu, porque eles não tinham as
ferramentas para resolver esses problemas. Isso é importante. Por exemplo, se
você olhar para os escritos de Fisher e Haldane, sua série de artigos famosos
de 1930 a 1932, eles dão uma explicação muito boa para as mudanças
evolutivas, de como as coisas acontecem numa população sob a influência da
seleção natural para melhorar ou manter a adaptação. No entanto, em toda a
obra deles, você não vai encontrar uma só palavra sobre a origem da
biodiversidade. Todo o campo das espécies, da especiação e da macroevolução
está totalmente ausente de 1930 a 1932, e pessoas que olhavam de fora, como
bioquímicos, diziam que aquilo era o fim da biologia evolutiva. Fisher e
Haldane tinham solucionado tudo. Nada disso! Todo o campo da biodiversidade foi
ignorado por eles, e só Dobzhansky, que era taxonomista de formação, mostrou
que os melhores taxonomistas nas décadas de 1870 e 1880 já haviam solucionado
o problema da origem de novas espécies, e foi só com ele que a biologia
evolutiva deu o passo adiante conhecido como síntese evolucionista, quando
Dobzhansky juntou biólogos evolutivos do tipo de Fisher e Haldane e
evolucionistas de organismos como eu e ele, Huxley e Simpson. Há várias
histórias de gente que sempre se refere a Fisher como a pessoa que refutou o
saltacionismo de DeVries e Bates e chama isso de síntese. Isso não foi uma
síntese. A síntese foi o que Dobzhansky iniciou, juntando a genética e a
sistemática.
O sr. diz no seu último livro que nós não deveríamos mais chamar a
evolução por seleção natural de teoria, mas sim de fato. Ainda assim, o que
se vê neste país [EUA] é uma resistência grande à idéia. De quem é a
culpa?
Da formação dos americanos. Veja, alguns psicólogos têm notado que, se você
diz algo reiteradas vezes a crianças menores de seis anos, elas acabam
acreditando. Alguns filósofos católicos parecem ter adotado esse princípio.
Assim, bem, as pessoas ainda têm a crença de que cada palavra da Bíblia é a
verdade final. Eu descobri uma coisa engraçada: quando o editor da "Science"
me encomendou o artigo dos cem anos, eu perguntei a mim mesmo quando tinha me
tornado um evolucionista. Faça essa pergunta a si mesmo -não é fácil
respondê-la. E eu descobri: meu Deus, eu sempre fui um evolucionista, eu nasci
um evolucionista. E os meus pais? Claro, ambos aceitavam a evolução, ou, como
se diria nos EUA, eles "acreditavam" na evolução. Aí eu fui para a
escola. E a evolução foi sempre algo dado como óbvio, tudo era explicado em
termos de um mundo que evolui, ou, como Dobzhansky diria, "nada no mundo
vivo faz sentido se não for à luz da evolução". Eu fui para a
universidade na Alemanha, e, claro, evolução era algo óbvio. Até neste país
[EUA], em 1931, quando cheguei, os principais livros-texto de biologia não
davam muito espaço ao criacionismo. Pessoas que não sofreram lavagem cerebral
com idéias religiosas geralmente dão a evolução como óbvia, claro.
O sr. acha que a evolução vai triunfar um dia?
Deixe-me dizer uma coisa: Vocês acham que o eleitor americano vai votar nos
democratas um dia? Até aqui neste lugar [um condomínio para pessoas idosas] eu
às vezes encontro um republicano cabeça-dura e eles... não podem ser mudados.
Um colega meu na Universidade da Califórnia em Riverside fez um experimento uma
vez. Ele havia durante anos lecionado um curso sobre evolução e viu que sempre
havia um certo número de criacionistas entre seus alunos. Um ano, antes da
primeira aula, ele deu a seus alunos um questionário para responder, com
questões muito simples, como "você acredita em Deus?", ou
"você acredita que cada palavra da Bíblia deve ser tomada pelo seu valor
de face?" -e assim por diante. Ele obteve um bom panorama da estrutura das
crenças de cada um dos seus alunos. No final do curso, durante o qual ele havia
exposto todas as evidências de que a evolução é um fato, ele deu o mesmo
questionário aos alunos, para ver quantos deles haviam sido afetados pelo curso
e no que eles acreditavam então. Ficou chocado, porque os que haviam se
mostrado religiosos no começo responderam: "Sim, eu ainda acredito em
Deus; sim, eu acredito que o mundo foi criado em seis dias" -apesar de um
semestre inteiro no qual havia sido demonstrado que tudo isso era bobagem.
Stephen Jay Gould diria que se trata de magistérios sem sobreposição...
Sim, há um pouquinho de verdade nisso. Vocês sabiam que Dobzhansky, que eu
considero o maior evolucionista do século passado, se ajoelhava e rezava para
Deus à noite, antes de dormir? David Lack, um dos dois ou três principais
evolucionistas no Reino Unido, acreditou até o fim. Sua mulher me escreveu uma
longa carta, dois meses antes da sua morte, falando do conforto que era para o
seu marido, ao morrer, acreditar no cristianismo.
O sr. ainda acorda às seis para escrever cartas?
Não senhor. Estou muito decepcionado com o número de dias em que tenho de
fazer um esforço enorme para sair da cama antes das oito. Eu escrevo cartas e
manuscritos. Além do livro que já está no prelo, tenho dois manuscritos, que
serão publicados em algum ponto deste ano ou do próximo, e tenho uma lista de
manuscritos que ainda quero escrever. As pessoas perguntam: "Por que você
se tortura assim?" Tortura? Não! Eu me divirto!
Colaboraram Marcelo Leite e Steve Mirsky