Embarcações com cascos de madeira, largamente utilizadas durante e expansão européia, cruzaram os mares durante séculos e, como conseqüência, iniciaram um período de intensa mistura de fauna entre os continentes. Este longo processo de mistura tornou obscura a compreensão sobre os padrões naturais de distribuição de muitas espécies largamente distribuídas em todo o mundo, mascarando possíveis introduções. A natureza cosmopolita de espécies perfuradoras de madeira, como Limnoria sp. e Teredo navalis, é uma forte evidência da ocorrência deste processo de homogeneização.

 

            Embora este tipo de construção naval continuar a ser utilizado em transportes costeiros e embarcações de pesca em algumas regiões, após a 2° Guerra Mundial a maioria das embarcações envolvendo comércio nacional e internacional começaram a ser construídas com aço, diminuindo o transporte de organismos perfuradores.

 

            Entretanto, pesquisas recentes indicam que a bioincrustação em navios internacionais e domésticos ainda é um vetor importante no transporte de espécies incrustantes, além de gerar prejuízos consideráveis às atividades de navegação relacionados com aumento do consumo de combustível, sobrecarga dos motores e maior tempo de manutenção e limpeza.

 

            Os cascos de embarcações podem abrigar comunidades incrustantes que são geralmente caracterizadas por espécies que possuem hábito escavador, se os cascos forem construídos com madeira, estágio bentônico séssil ou incrustante e mobilidade dos adultos ou estágios larvais, que permitem a dispersão. Os organismos incrustantes mais freqüentemente encontrados nos cascos são cirripédios, bivalves, hidrozoários, anêmonas, briozoários, esponjas, tunicados e algas, além de organismos errantes associados , como gastrópodes, isópodos, anfípodas e caranguejos, entre outros.

     

            Várias tintas com composições antiincrustantes foram e estão sendo desenvolvidas, entre elas as tintas a base de tributil-estanho (TBT), que apesar de sua eficiência, foram banidas por vários países a partir de 2003, devido à alta toxidade e persistência no ambiente. Embora haja tentativas de melhorar o desempenho das tintas antiincrustantes por parte dos fabricantes, os resultados obtidos não são satisfatórios. Dessa forma, a possibilidade de transporte de espécies nos de cascos de embarcações ainda é grande.

 

            Embarcações domésticas, comerciais ou recreacionais, particularmente aquelas que permanecem longos períodos próximos a portos infectados, exercem papel fundamental na distribuição e espalhamento de espécies exóticas, pois permite o transporte de organismos sedentários e incrustantes para longe dos portos onde foram primeiramente introduzidos.

 

            As plataformas para exploração de petróleo também consistem em vetores importantes no aumento da distribuição de várias espécies marinhas, pois não possuem proteção antiincrustante eficaz, podem passar longos períodos estacionadas ou serem arrendadas de outros países, como no caso do Brasil. O exemplo da introdução de Tubastrea coccinea, um coral escleractíneo, por plataforma no Brasil é um caso conhecido, assim como Hypsoblennius invemar, um peixe da família Blenniidae, recentemente encontrado associado às plataformas na região sul brasileira.

             

            O mecanismo de introdução de espécies por bioincrustação pode atuar de várias formas, entre elas as desovas de espécies exóticas incrustadas em cascos de embarcações e em plataformas em uma nova região, deslocamento de espécies incrustantes para outras áreas onde é feita a limpeza periódica de estruturas infectadas (como cascos, âncoras, hélices e estruturas flutuantes), afundamento deliberado ou acidental de navios com cascos infectados ou ainda por meio de equipamentos de aqüicultura.

 

            A maioria das espécies introduzidas em um novo ambiente não consegue sobreviver e estabelecer uma população viável, devido à predação e/ou competição com as espécies nativas por alimento e espaço e às próprias características físicas e químicas do ambiente.

 

            Entretanto, quando todos os fatores são favoráveis, uma espécie exótica introduzida pode estabelecer uma população viável no ambiente invadido e tornar-se invasora, ou seja, pode ser capaz de adaptar-se e reproduzir-se a ponto de ocupar o espaço de organismos residentes, tendendo à dominância.

 

            A recente introdução do mexilhão Mytilopsis sallei na região nordeste da Austrália, assim como a introdução da alga Undaria pinnatifida no sudeste da Tasmânia e Nova Zelândia por embarcações pequenas e a distribuição do poliqueta Sabella spallanzanii no noroeste da Austrália são exemplo da importância deste vetor na introdução e espalhamento de espécies exóticas.

 

 


Referências

 

Ferreira CEL, Gonçalves JEA and Coutinho R (2004) Cascos de navios e plataformas como vetores na introdução de espécies exóticas. In: Água de Lastro e Bioinvasão, pp 143-155. Editora Interciência, Rio de Janeiro, RJ

 

Gollasch S (2002) The improtance of ship hull fouling as a vector for species introduction into the North Sea. Biofouling 18: 105-121

 

Hostin MS, Fontes J, Afonso P, Serpa N, Sazima C, Barreiros JP and Sazima I (2002) Pontos de encontros de peixes em alto mar. Ciência Hoje 31(183): 20-27

 

Johnson LE, Ricciardi A and Carlton JT (2001) Overland dispersal of aquatic invasive species: a risk assessment of transient recreational boating. Ecological Applications 11(6): 1789-1799

 

http://www.marine.csiro.au/crimp

 

http://www.marine.csiro.au/crimp/nimpis

 

última atualização: setembro/2005


























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